As palavras. Estavam inquietas dentro de mim à espera de uma caneta para finalmente serem libertadas.
O choro do vento ecoava na minha cabeça que, agora, parecia uma sala vazia e sem vida. Uma sala que em tempos estava sempre cheia de cor e de alegria, em que não existia magoa nem sofrimento. Mas agora tudo isso mudara.
Aquele som que em tempos parecia tão reconfortante, tão sereno, agora não passava de um som gritante e desconfortável como tantos outros.
Num quiosque de rua pobre e velho, o único resistente ás grandes superfícies que contêm tudo num espaço mais cómodo e atraente, uma esferográfica e um pequeno bloco de notas feito de papel reciclado com um malmequer seco na sua capa.
Pus-me debaixo da primeira laranjeira que encontrei.
Libertei-as, como se escrevesse fosse o meu modo de vida, a minha maior paixão, a minha Única paixão. Mas não era, nem nunca será, nunca terei realmente tempo suficiente para me dedicar á escrita, haverá sempre mais em que pensar, mais em que gastar os meus minutos. Com pena.
O cheiro intenso da relva entrava-me agora pelo nariz. Nunca gostara daquele cheiro a relva acabada de cortar, mas naquele dia até estava a aprender a gostar, até me estava a saber bem sentir um aroma diferente no ar. Um aroma diferente ao usual aroma de gasolina que tanto se sente na cidade.
Esbocei um sorriso, agora já não era o incómodo som do vento ouvia-a mas sim o som do riso das crianças que brincavam junto ao rio.
O rio mais azul do mundo, o rio que me viu crescer, que me viu rir e chorar. O único rio capaz de me acalmar quando já nada o parecia fazer, quando já nada fazia sentido. O rio que transportava a saudade de quem por lá tinha passado, de quem lá tinha estudado, nessa pequena terra intitulada de Coimbra. Lá estava sempre tudo claro, lá estava sempre tudo certo.
Em Coimbra, em Lisboa ou em Barcelona. Para sempre, desde de sempre.
Mondego, Dezembro de 2008.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
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