sábado, 8 de janeiro de 2011

Matilde sempre fora uma menina mimada. Era a menina dos olhos do seu pai e gostava disso. Apesar dos seus 17 anos para ele era como uma criança, pura e ingénua que precisava ainda de toda a protecção dos seus ascendentes. De facto precisava, apesar de a sua pureza ser muito relativa, Matilde era ingénua e tinha necessidade de se sentir sempre protegida.
A sua vida era, aparentemente, o sonho de qualquer adolescente. As paredes do seu quarto eram de um rosa clarinho, que acalmava qualquer pessoa que pusesse um pé naquela divisão. Tinha um dossel, para os seus sonhos de princesa. Porque para ter verdadeiros sonhos de princesa há que agir como uma. O chão era frio, de mármore cuidadosamente polida. Por essa razão tinha sempre as suas pantufas ao lado da cama.
Só que nem tudo era perfeito na sua vida, a pressão imposta pelos seus pais era brutal. Eles tinham as maiores espectativas para a sua menina loira de olho azul, olho este que provinha do seu avô paterno.
Todos os anos, rios de dinheiro eram gastos com a educação de Matilde, a sua carga horária era extremamente cansativa. Mas ela fazia o que tinha de fazer, era uma excelente aluna a tudo, tinha de ser ou nao seria ninguém na vida mais tarde. E ela tinha de ser alguém, pois Matilde estava habituada a ter tudo o que queria e do melhor que havia. Só de pensar que um dia poderia não conseguir sustentar este luxuoso modo de vida tremia como varas verdes.
Apesar de saber que devia olhar mais á miséria que havia, não há sua volta mas bem perto de si Matilde não conseguia descorar a sua colecção de malas, os seus saltos altos e os seus vestidinhos de alta-costura nos quais tinha tanto orgulho e investia tanto dinheiro.
Secretamente sonhava acordada, quando não estava com livros até ao pescoço, em viajar, em largar tudo durante um ano e ir pelo mundo só com uma mochila às costas. Conhecer gente de todos os países, de todos os escalões sociais ao contrário do que se passava no seu pequeno bairro de 'socialite'. Por outro lado tinha medo, muito medo. Não ía ter a protecção tão querida do seu pai, ninguém iria saber que era quase de sangue azul, nao poderia evocar o seu apelido para defesa própria como tantas vezes fazia, não ía ter conforto nenhum ao qual estava tão (mal) habituada.
Podia ter o mundo nas suas mãos, se não fosse o medo de que estas cedessem e não o conseguissem segurar.

'Querido diário, quando deixar de ter medo de tudo vou ser finalmente feliz. Até lá só a ti te confio o que realmente quero fazer da minha vida. Não posso desiludir os meus pais.
Com amor, Matilde'

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